Marcelo Tavares da Áudio Designer

Manhã fria e tempestuosa a escolhida para a entrevista a um verdadeiro guru (entenda-se pessoa com autoridade devido à sua perícia e conhecimento em determinada área) do mundo da acústica e ainda por cima residente em Portugal há mais de 20 anos.
Marcelo Tavares lá estava no local e hora combinada. De nacionalidade luso-brasileira, com formação musical, e interessado pela acústica desde jovem, trabalhou na Globo, passou pela SIC, e em 2002 decidiu criar a Audio Designer, empresa especializada em projectos e soluções de isolamento e tratamento acústico em estúdios de gravação, de televisão, rádio, pós-produção, teatros, auditórios, conferência, salas dedicadas ao hi-fi e cinema, restaurantes, discotecas… O universo de clientes é vasto e além-fronteiras, como por exemplo o novo estúdio da angolana Zap TV ainda este ano, na imagem em baixo.
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Muito do seu percurso profissional foi feito em estúdios de televisão na produção de som. Marcelo afirma que a tendência é a proliferação de estúdios de TV, quando muitos dos grandes grupos editoriais com jornais estão actualmente a abrir canais de TV. E que todos estes canais de comunicação se fundem e dirigem cada vez mais para o multimédia. A intervenção da Audio Designer num estúdio de TV é de solução total do isolamento ao mobiliário, com materiais de fabrico próprio, excluindo os equipamentos de som. Afirma veementemente que não comercializa nem painéis nem equipamentos pois não é essa a sua área e forma de trabalho. Fabrica os seus próprios painéis difusores em madeira ou mdf, biombos e portas acústicas, e sistemas de ar condicionado apenas e só para as suas intervenções de tratamento ou isolamento. Essa é uma das razões porque já interviu de algum modo em muitas das empresas nacionais de comércio de equipamentos de som. E todos reconhecem o seu elevado grau de exigência e de excelência.
Embora o leque de clientes seja vasto e heterogéneo; do residencial ao industrial; da sala de audição high-end ao estúdio de gravação; o reconhecimento da sua obsessão pela excelência, esse, porém, é consensual, unânime e global. Individualidades como o DJ Victor Calderone, James Lock, vencedor de 2 Grammys, ou Peter Mc Grath da Wilson Audio, que tece rasgados elogios à acústica de uma sala de audição da Imacústica made by Marcelo Tavares como poderá ver no seguinte vídeo

Testemunhos de clientes usam expressões como “milagre” e “magia” acústicas, mas também o descrevem com palavras como “sensibilidade auditiva”, “paixão”, e “bondade humana”. Falam em autênticas melhorias sobrenaturais na performance dos seus sistemas. Mas então voltamos à velha questão: será a acústica da sala mais importante do que os equipamentos constituintes do sistema de som?
Segundo Marcelo a relação será de 80% para a acústica e electroacústica (colunas) e 20% para os equipamentos. Mas, não sendo a acústica uma ciência exacta, a soma das partes nunca chega nem perto dos 90%. Revela que há programas de modelação acústica muito avançados mas que ainda estão longe da análise e intuição humana na concretização de um bom resultado. E depois há todo um universo de sinergias entre os equipamentos e a acústica, e entre o resultado destas forças e o gosto, os objectivos e a personalidade de cada cliente. “Esse é que é o grande desafio. É isso que me move!”
E qual a relação do que é mensurável e do que é intuição para chegar a uma acústica made by Marcelo Tavares?
“Em qualquer livro de acústica estão todos esses dados como distância entre as colunas e entre o ponto de audição, etc., mas isso não é o suficiente para uma sala soar bem. Aí entra o outro lado… que eu chamo de magia negra! Que mais não é do que experiência. A minha profissão é coisa de velhos… quanto mais experiência melhor”, revela e remata: “O que se perde em audição, ganha-se em experiência.”
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Marcelo Tavares entende que tecnologicamente o áudio não tem acompanhado os avanços do vídeo e da imagem. Afirma que quer os formatos de áudio como as colunas ainda se regem por leis do século XIX… “Os investimentos na área do áudio sempre foram muito pequenos em relação a outras áreas. Antevejo uma revolução na área dos materiais inteligentes. Penso que quando ultrapassarmos o conceito dos altifalantes, entraremos numa nova era no que respeita ao som. O futuro são os materiais sonossensíveis que irão ler o som que recebem, modificar e harmonizar a sua estrutura em função do espaço. Por enquanto teremos que continuar a usar lãs, madeira e pedra e vários tipos de painéis para tratamento acústico. Os ingredientes são estes. A forma como se cozinham é que resulta ou não na tal magia.”
Em relação aos formatos de áudio, Marcelo Tavares afirma que o aparecimento do CD foi decepcionante. E só quando apareceu o Direct Stream Digital, vulgo Super Audio CD, julgou que tinham encontrado a fórmula pois com uma taxa de amostragem 64 vezes superior ao do CD e 14 vezes superior ao DVD tinha tudo para dar certo, mas a produção é incipiente, e parece-lhe estar defunto.
Em relação às suas preferências em termos de equipamentos, e ao fim de alguma insistência, mencionou que prefere os que reproduzem de forma transparente, sem “dourar a pílula”, como a série 800 da B&W, Wilson Audio, TAD, Rockport e mesmo JBL…
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Voltando ao seu trabalho, revela que tem muitos pedidos para isolamentos estanques, e afirma com alguma ironia que para tal só são necessárias duas coisas: “dinheiro e espaço, mas acima de tudo espaço para conseguir uma caixa de ar suficientemente grande para preencher de material absorvente. E a diferença de cortar 40 ou 60 dB não é gastar mais 20%, às vezes é gastar mais 200%. A solução do isolamento passa sempre pela caixa dentro da caixa.”
Em relação ao sucesso quantificável, revela que o seu melhor ano em termos de facturação foi 2013, devido a obras no estrangeiro. Embora afirme com alguma graça que tenha mais fama do que proveito. Ao falar de países como Brasil e Angola em franco crescimento, Marcelo mostra-se renitente e confessa que gosta muito do equilíbrio de Portugal. Diz que Angola lhe faz lembrar um pouco do seu país. Refere-se ao fosso entre ricos e pobres, algo que o incomoda. Apesar do que se tem passado nestes últimos anos, gosta do equilíbrio deste país que adoptou há cerca de 22 anos, constituiu família, construiu uma empresa que é uma enorme referência, e da sua autoridade, reconhecimento e saber-fazer na acústica fez-se “guru”!

Samuel Sousa

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