Luís Figueiredo, o Músico dos Arranjos de “Amar pelos Dois”

Ganhou uma notoriedade, quase planetária, depois de Salvador Sobral ter agradecido em público no Festival Eurovisão os seus “arranjos”. Mas este pianista e compositor profissional de Coimbra, de 37 anos, etnomusicólogo, e com uma relação intensíssima em diferentes níveis com a música, não se fica pelos “arranjos” de músicas como “Amar pelos Dois”, Luís Figueiredo produz e dirige, e ainda lhe sobra tempo para ensinar Jazz na Universidade de Aveiro. Quisemos descobrir um pouco mais sobre a sua relação com o som, com a música, e sobre aquilo que o move.

Som: Quais os instrumentos musicais que tem em casa e no estúdio?
LF: Tenho uma sala em minha casa onde trabalho, e é aí que tenho os meus instrumentos. Tenho um piano de meia cauda Yamaha C5, um Nord Electro 5D 73, um teclado midi IK Multimedia iRig Keys Pro (37 teclas) e uma melódica Hohner student. Depois tenho alguns outros instrumentos e acessórios, como um guitalele Yamaha GL1, um pedal de delay Boss DD7 e vários pequenos instrumentos de percussão.

Som: E qual a relação pessoal com os instrumentos? Costuma mantê-los ou troca por modelos mais recentes? Compra instrumentos/equipamentos/softwares em Portugal ou nas lojas online alemãs? Quais as lojas?
LF: Acontece um pouco de tudo. O piano acústico é naturalmente um instrumento para a vida, mas já tive um Rhodes Mark II de 1980 (73 teclas) que vendi por razões práticas. Adoro o rhodes mas tornou-se incomportável transportá-lo para concertos e ensaios. Compro na Thomann mas também em lojas em Portugal ou noutros países por onde passo.

Som: Quais os instrumentos que te acompanharam no percurso pessoal e profissional?
LF: Numa primeira fase, apenas e só o piano acústico. Até terminar o curso superior, estudava num Young Chang vertical, e depois comprei o piano que tenho agora. Pouco a pouco, tenho vindo a descobrir outros teclados, incluindo alguns que não tenho mas adoro tocar, como o wurlitzer, o clavinet, o órgão hammond ou vários sintetizadores.

Som: Qual o sistema de som que mais gosta de ouvir na reprodução da música que fazes?
LF: Como suponho que acontece com outros músicos, tenho especial prazer em ouvir a minha música na regie do estúdio, ao gravá-la. As condições de escuta são geralmente óptimas, e há sempre aquele fascínio de algo que foi criado no momento e depois fixado para sempre.

Som: Quais os equipamentos que tem para ouvir música em casa? Prefere vinil, CD ou streaming?
LF: Nunca tive uma grande ligação ao vinil. Tive, sim, à cassete, mas esse suporte tem problemas óbvios. Continuo a preferir ouvir CD, embora muitas vezes por razões profissionais oiça música no computador, a partir de ficheiros que tenho ou em streaming. Oiço muita música em viagem, o que significa que oiço muita música sem suporte físico. Mas quando faço a minha música, gosto de fabricar discos físicos, porque esse lado sempre foi importante para mim. Ainda gosto muito de ouvir música a ler a informação do booklet: quem fez o quê no disco, quando e onde foi gravado, agradecimentos, etc. É um modelo de audiofilia que continua a ser importante para mim, por isso, tento possibilitá-lo a quem ouve a minha música.

Som: Quais as suas influências musicais? Qual o(s) músico(s) ou profissional que mais admira ou que gostaria de trabalhar? Qual o concerto / intérprete que mais o marcou? Tem o hábito de ir a festivais?
LF: Tenho muita dificuldade em responder a este tipo de perguntas. Em fases diferentes tive referências diferentes, e ao mesmo tempo há coisas intemporais no meu percurso. Bach, Brahms, Debussy, Ravel, Bartók, Arturo Benedetti Michelangeli, Marta Argerich, Ralph Towner, Keith Jarrett, Mário Laginha, Glenn Gould, Brad Mehldau, João Paulo Esteves da Silva, Kenny Wheeler, Branford Marsalis, Miles Davis, Radiohead, Herbie Hancock, Bill Evans, Clã, Bernardo Sassetti, John Taylor, Sting, Caetano Veloso, Morphine, Ornette Coleman, Chico Buarque, Dire Straits, Pink Floyd… Todos estes e muitos mais têm sido importantes para mim. O primeiro músico que me fascinou ao ponto de me levar a querer fazer coisas minhas foi o Keith Jarrett, imediatamente seguido do Mário Laginha, muito influenciado por ele e com quem estudei mais tarde. Mas o processo de escuta e descoberta nunca termina. Nas últimas semanas tenho ouvido muito Samuel Barber, Talking Heads e David Byrne, Theo Bleckmann, Bahamas, Bill Frisell, entre outros. Ao mesmo tempo, estou numa fase em que, por falta de disponibilidade, vou a muito poucos concertos. Mas já tive fases em que ia a tudo o que podia, e isso foi importantíssimo do ponto de vista formativo.

Som: Já fez arranjos para bandas sonoras?
LF: Escrever para cinema é algo que ambiciono muito. Mas, à parte de uma ou outra pequena colaboração, nunca surgiu essa possibilidade. Espero consegui-lo no futuro próximo porque o cinema é uma grande paixão minha.

Som: Como decide o tipo de arranjos/trabalhos que quer fazer?
LF: Normalmente as motivações são de carácter artístico, muito embora um músico profissional tenha de encarar a sua carreira com algum pragmatismo. Mas diria que não me envolvo em projectos em que não me reveja minimamente.

Som: O âmbito do seu trabalho é maioritariamente com músicos e para o mercado nacional? Tem propostas de outros músicos e clientes de outros países? Pode adiantar alguns?
LF: Depende muito dos períodos que atravesso e dos projectos em concreto. Uma parceria que tenho com a cantora Sofia Vitória, por exemplo, levou-nos a tocar em S. Paulo, no Brasil, com o Ivan Lins. Durante os próximos meses estarei em palco com vários projectos de músicos portugueses e estrangeiros, incluindo Guilherme Kastrup (percussionista brasileiro e produtor de Elza Soares), João Hasselberg (contrabaixista português), Rita Maria (cantora portuguesa), Albert Villa (guitarrista espanhol) e Mário Franco (contrabaixista português).

Som: Caso tivesse um plafond ilimitado que equipamentos, instrumentos, tipo de estúdio gostaria de ter? Que projetos tem para o futuro?
LF: Gostaria de poder ter um pequeno estúdio com condições óptimas de gravação, com um piano de concerto e outros instrumentos que fazem parte dos meus recursos habituais. Provavelmente faria vários investimentos em termos de instrumentação mas também de material de captação e edição de som.

Som: Quais os trabalhos em curso? O que vem aí pela mão de Luís Figueiredo que os nossos leitores devam prestar atenção?
LF: Está agora mesmo a sair online o segundo disco de canções em parceria com o contrabaixista João Hasselberg, que apresentaremos em concertos ao longo do resto deste ano. Para já confirmados: Porto a 9 Junho e Ponte de Lima a 12 Julho.
– Em final de Junho gravarei o meu 3º disco como líder, cuja apresentação está agendada para 11 de Novembro no Hot Clube de Portugal, em Lisboa.
– Toco actualmente com a Cristina Branco e integrei a banda que gravou no ano passado o disco Menina. Temos tocado por toda a Europa e com ela haverá ainda vários concertos ao longo deste ano, em Portugal e fora do país.
– Produzi um disco da Sofia Vitória intitulado ECHOES – Fernando Pessoa, English Poetry & Prose (2016) que apresentaremos mais uma vez no dia 8 de Setembro em Sesimbra.
– Lancei em 2016 um disco em parceria com o cantor lírico Nuno Dias dedicado ao cancioneiro de Luiz Goes, intitulado Canções Pagãs. Estreámos no Conservatório de Música de Coimbra em Dezembro passado, e ao longo do ano continuaremos a apresentar este disco com regularidade.
Continuo a fazer trabalho de arranjo/produção/direcção musical, que é algo que me dá enorme prazer.

Autor: Samuel Sousa

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